19/10/2016

A chave do destino de cada criança

Por: 

Maria Helena Masquetti*

Quem já observou um entroncamento de linhas de trem deve ter visto este equipamento simples da foto, mais conhecido como a chave do desvio que, num pequeno movimento da alavanca, realinha os trilhos do trem de modo que ele siga para o seu destino previsto. Cada um de nós, pais, parentes, amigos, mestres, governos e a sociedade como um todo, somos como esta chave que, às vezes, com um clique de nossa intervenção, podemos colocar num rumo mais promissor a vida de uma ou de muitas crianças.

Por mais devastadores que a indiferença e o abandono possam ser para a saúde psíquica de uma criança e até mesmo de adultos, são, felizmente, muitos os exemplos onde uma interferência individual ou social foi capaz de reverter prognósticos de futuro desoladores. Na maioria desses casos, bastou o lugar do maltrato ser ocupado por alguém empático, e com uma disponibilidade mínima, para mostrar que se importava sinceramente com a criança para reanimar-lhe a confiança em si mesma e no mundo.

Em sua versão construtiva, o uso humanizado deste lugar de poder é o que pode tornar o médico mais terapêutico que o remédio, o mestre mais instrutivo que o ensino, o padre mais milagroso que a religião, e os pais maiores que tudo isso ao se darem conta do quanto suas palavras e atitudes são decisivas para a forma como seus filhos irão lidar com os desafios e acreditar na viabilidade de seus sonhos.

Quem tiver à sua frente a missão de formar uma criança, deve levar em conta que, nos primeiros anos, o mundo para ela se refere àqueles de quem ela depende e ao modo como é acolhida por eles. É por esta ótica que, para muitas pessoas, mesmo lidando com adversidades, o mundo se apresenta amistoso e pleno de possibilidades enquanto, para outras, em condição até mais favorável, pode parecer limitador e hostil.

“Nossa, que desenho interessante!”, “Que história fascinante você está me contando!”, “Sim, concordo com você que os golfinhos deveriam ter asas”. São infinitas e inusitadas as expressões e ideias que gravitam no universo íntimo de cada criança, todas, porém, à espera da chancela de quem elas possam sentir como confiáveis. Como a cena imaginada que ganha vida quando o pintor a materializa na tela, assim também ganham vida, concretude e valor as ideias e sentimentos das crianças quando recebidos e legitimados por quem tenha construído junto a elas uma credencial afetiva para isso.

Se o bem-estar e o desenvolvimento das crianças não for prioridade para uma comunidade ou nação, nada mais poderá ser, uma vez que serão elas que tocarão em frente nossa busca de um mundo melhor. Na proporção do lugar que ocupamos em sociedade, nossas principais perguntas diante de uma criança ou das crianças em geral em situação vulnerável devem ser: “O que está ao meu alcance fazer para melhorar a vida desta criança?” ou “O que posso fazer para ajudar a tirar do abandono tantas crianças em minha cidade, em meu estado, em meu país?”.

“Minha mãe nunca me deu sequer um beijo e eu me sentia perdida no mundo, mas sempre que minha madrinha chegava, todos os seus beijos eram pra mim”, “Meu pai me desmerecia e humilhava, mas meu professor sempre me dizia que eu era capaz de fazer melhor e eu fazia”. Mesmo nos casos em que a autoridade dos pais foi justamente a que mais falhou, a presença empática e amorosa de um substituto, muitas vezes até fora da família, tem sido a chave que, acionada num momento oportuno, possibilitou colocar nos trilhos o trem de tantas vidas que, há muito, poderiam ter se descarrilhado.

Recordando Gandhi: “Temos que nos tornar a mudança que queremos ver no mundo”.  A chave está em nossas mãos e bastaria que todos juntos somássemos nossas pequenas ou grandes ações para salvaguardar e honrar o maior patrimônio de nossa humanidade que pulsa no encantamento e no brincar das crianças. Há uma infinidade delas esperando por uma intervenção única que seja de nossa parte para que os capítulos tristes de suas existências possam ser reescritos rumo a um final mais feliz. E se agirmos rápido, não figuraremos como os vilões na história.
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*Maria Helena Masquetti é graduada em Psicologia e Comunicação Social, possui especialização em Psicoterapia Breve e realiza atendimento clínico em consultório desde 1993. Exerceu a função de redatora publicitária durante 12 anos e hoje é psicóloga do Instituto Alana.

[Fonte: Envolverde]

 

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