29/07/2016

Como entender o jovem e sua relação com a escola?

Por: 

Maria Alice Setubal*

Ocupações de alunos secundaristas em SP revelaram que os jovens não apenas querem frequentar esses espaços, mas desejam uma escola que esteja conectada com o mundo contemporâneo

A discussão sobre a Base Nacional Comum Curricular tem movimentado o debate sobre quais seriam as melhores políticas para as diferentes etapas de ensino – sobretudo o ensino médio.

Se muitas pesquisas apontam para o desinteresse dos adolescentes pelas escolas, outras -- como as conduzidas pela socióloga Miriam Abramovay e pelo Cenpec (Educação Cultura e Ação Comunitária) -- aprofundam essa temática e demonstram que nem sempre os jovens têm descaso pela educação.

Por exemplo, políticas de educação integral ou de educação profissional têm atraído os alunos para a escola e resultado em melhores índices de aprendizagem nas avaliações nacionais. No entanto, tais políticas ainda são restritas a uma minoria dos estudantes brasileiros.

Outro exemplo são as ocupações de alunos secundaristas nos colégios, que aconteceram recentemente. Elas revelaram que os jovens não apenas querem frequentar aqueles espaços, mas desejam uma escola que esteja conectada com o mundo contemporâneo. Para exemplificar esta demanda, eles organizaram aulas e oficinas sobre temas relativos a cultura, cidadania, direitos humanos, artes e comunicação.

O debate sobre o ensino médio precisa incluir uma profunda reflexão sobre as juventudes. Inúmeras pesquisas, tanto acadêmicas como as realizadas por institutos de opinião pública, buscam entender o modo de pensar e agir das novas gerações. Experiências com diferentes programas de organizações da sociedade civil, assim como diferentes prêmios voltados para os jovens, têm destacados alguns pontos em comum:

- Os adolescentes e jovens precisam construir relações de confiança e apoio nas interações com adultos e outros jovens;

- Eles respondem às altas expectativas;

- Eles querem oportunidades para contribuir com projetos e experiências ligados aos seus interesses autênticos, que os engajem e gerem reflexão;

- Precisam acreditar nas suas capacidades e seu potencial;

- Eles querem ter autonomia e se sentirem autores, protagonistas de suas ações e de seu aprendizado.

Programas como o Jovens Urbanos, a Olimpíada da Língua Portuguesa, o Prêmio Respostas para o Amanhã ou o Ciclo Autoral promovido pela secretaria municipal de São Paulo são bons exemplos de atividades que envolvem os adolescentes e levam em consideração estes aspectos.

Os jovens precisam se sentir empoderados para assumirem a responsabilidade por sua própria jornada de aprendizagem. Os dados sobre a educação brasileira revelam que apenas 56,7% dos alunos com até 19 anos completam o ensino médio, segundo dados do Todos Pela Educação com base na Pnad. E apesar do número de ingressantes no Ensino Superior ter aumentado de 2,1 milhões em 2010 para 2,7 milhões em 2013, neste período o número de concluintes cresceu apenas de 973 mil para 991 mil, segundo resumo técnico do Inep.

Se já avançamos muito no acesso ao ensino médio, ainda temos um longo caminho para formarmos as novas gerações e qualificá-las para superar os desafios que o Brasil precisa enfrentar para sair das crises política e econômica nas quais estamos atolados.

Para além de questões sobre a gestão, precisamos entender os jovens na sua contemporaneidade e formar nossos professores para que estejam preparados para atuar nessa perspectiva. A rapidez da evolução das inovações tecnológicas e o ritmo constante das mudanças globais não nos dão muito tempo. Ao contrário, já estamos muito atrasados e se não enfrentarmos essas questões, não serão apenas os jovens da escola pública que perderão oportunidades, mas o país como um todo, pois não alcançaremos um papel de destaque no mundo global. As respostas para a nossa educação estão ao alcance dos políticos e das políticas. Cabe a nós fazer pressão para que os jovens recebam a educação que merecem – e querem.
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*Maria Alice Setubal, a Neca Setubal, é socióloga e educadora. Doutora em psicologia da educação, preside os conselhos do Cenpec e da Fundação Tide Setubal e pesquisa educação, desigualdades e territórios vulneráveis.

[Fonte: UOL Educação]

 

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