04/04/2014

Competências socioemocionais e seu impacto no aprendizado escolar

Por: 

Mozart Neves Ramos*

No recente Fórum Internacional de Políticas Públicas Educar para as competências do século 21, promovido pelo Ministério da Educação, pelo Instituto Ayrton Senna e pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ficou evidente que o sucesso acadêmico, profissional e pessoal dos indivíduos será, em grande parte, determinado pela capacidade de dominar um conjunto de novos conhecimentos e habilidades que vão além das competências cognitivas.

Esse conjunto, reconhecido como competências socioemocionais ou não cognitivas, ou ainda como atributos de personalidade, reúne uma série de habilidades que se desenvolvem ao longo da vida. Entre elas, responsabilização, esforço, disciplina, abertura a novas experiências, extroversão, amabilidade, estabilidade emocional e locus de controle.

De maneira geral e de forma não intencional, a escola reconhece a importância dessas habilidades no âmbito de seu projeto pedagógico. Ainda não há, por seu lado, currículo estruturado ou metodologia de ensino explicitamente direcionados para esse fim. Para incrementá-las de forma intencional nas escolas, é estrategicamente necessário desenvolver mais pesquisas e avaliações que sejam capazes de evidenciar de que modo elas se desenvolvem e quais delas podem causar maior impacto no desempenho escolar.

Ao largo dos anos, a escola priorizou o desenvolvimento das competências cognitivas, relacionadas, por exemplo, ao letramento e ao raciocínio analítico, que vêm sendo avaliados pelos diferentes sistemas educativos. Obviamente, essas competências são muito importantes e ainda representam desafio a ser vencido pelo sistema educacional brasileiro. Mas os estudos vêm mostrando, por sua vez, que tais competências, refletidas pelo desempenho escolar, podem ter nas competências socioemocionais forte aliado, como revelou o recente estudo realizado na rede estadual de educação do Rio de Janeiro.

A amostra consistiu em 25 mil alunos do 5º ano do ensino fundamental e dos 1º e 3º anos do ensino médio. Os dados coletados incluem informações quanto a competências socioemocionais dos alunos, resultados de testes acadêmicos padronizados em matemática e língua portuguesa, informação demográfica, medidas de bem-estar social e informações socioeconômicas. E os resultados foram impressionantes.

Entre as habilidades socioemocionais, a tendência de ser organizado, esforçado e responsável revelou ser a mais significativa para o desempenho em matemática, enquanto a abertura a novas experiências e o locus de controle (protagonismo) foram as mais relevantes na determinação do desempenho em língua portuguesa. O impacto de cada uma dessas habilidades, quando potencializadas, equivale, em média, a três meses adicionais de estudo.

Outro resultado interessante foi o relativo ao papel desempenhado pelos pais, independentemente de seu nível de escolaridade. Aqui, o estudo revela a importância do incentivo que os pais dão aos filhos para se aplicar a fim de obter desempenho escolar melhor. Outras correlações importantes foram verificadas e podem ser acessadas no site www.educacaosec21.org.br ou no relatório Desenvolvimento socioemocional e aprendizado escolar: uma proposta de mensuração para apoiar políticas públicas.

Esse estudo representa passo importante para que o país se debruce sobre o tema e assim possa enfrentar, com mais chances de sucesso, o desafio da oferta de ensino com qualidade. Por se tratar, no contexto aqui referido, de campo relativamente novo, torna-se necessário formar massa crítica -- recursos humanos qualificados, incluindo professores para as nossas escolas públicas. E, nesse sentido, o Ministério da Educação, por meio da Capes, não perdeu tempo e começa a preparar edital com essa finalidade. O país está, afinal, construindo o protagonismo no campo das competências e habilidades para o século 21.

 

* Doutor em Química pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que também é diretor de articulação e inovação do Instituto Ayrton Senna e membro do Conselho Nacional de Educação (CNE)

[Foto: Renata Victor]

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 Comentários

Prezados, Excelentes colocações do Dr. Mozart Ramos! Apenas atualizando-os a respeito de metodologias específicas para desenvolvimento de competências socioemocionais, cito o Programa Amigos do Zippy, em (www.az.org.br), existente no Brasil há 10 anos, originado por associação entre profissionais de vários países, validado cientificamente aqui e internacionalmente, e que já atinge 1.000.000 de crianças, sendo 1/5 delas, brasileiras. Parabéns !