17/05/2012

Confira a segunda parte da entrevista com o Jornalista Amigo da Criança Mauri König

Por: 

Equipe ANDI

Para o Jornalista Amigo da Criança Mauri König, a educação como instrumento de cidadania e desenvolvimento social e o conhecimento do Estatuto da Criança e do Adolescente são temas relacionados à infância e juventude que necessitam de mais atenção da imprensa. Ele fala ainda sobre estratégias para furos jornalísticos na área de direitos humanos e conta qual reportagem mais marcou sua carreira.

Em sua opinião, com relação aos direitos da criança e do adolescente, que temas necessitam de mais atenção por parte da imprensa?

Considerando que os meios de comunicação exercem um papel de fiscalização sobre a aplicação das políticas públicas sociais, aponto duas abordagens necessárias: a educação e a legislação. Primeiro, a educação deve ser entendida e abordada de maneira ampla, levando em conta não só a necessidade da universalização do ensino, mas também de forma a incorporar à educação os valores da assistência social. É preciso reconhecer e tratar o ensino como o exercício da cidadania e também uma estratégia de superação da pobreza e de outras dificuldades sociais. A cobertura equivocada de muitos meios de comunicação ajudou a formar uma opinião distorcida sobre o ECA, em especial quando trata de adolescentes em conflito com a lei. Há um senso comum de que o ECA é superprotetor e permissivo, parte em razão da forma como ele é levado a público pela imprensa. Seria importante esclarecer que o ECA é um marco legal de direitos, mas também de obrigações.

Que características ou estratégias você considera importantes para conduzir o jornalista à descoberta de "furos" nessa área?

Esse tipo de cobertura funciona mais em razão do empenho de alguns profissionais do que por uma linha editorial bem definida do meio de comunicação. Ou seja, a cobertura bem feita de temas que sejam efetivamente relevantes para a sociedade depende mais do interesse do jornalista do que da empresa. Em geral, essas pautas são pensadas, estruturadas e executadas tomando-se como base o interesse e o conhecimento do profissional de imprensa. Quanto mais jornalistas engajados tivermos nas redações, maiores as chances de ampliarmos o espaço desses temas.

Por mais pirotecnia que se invente, nada substitui o olhar clínico do repórter para identificar uma boa história. É preciso estar atento a algo que se apresenta diferente na paisagem, e isso pode ser um personagem que seja representativo num contexto social. Um morador de favela, por exemplo, pode ser o fio condutor de uma reportagem que discuta o déficit habitacional na cidade ou no país, um morador de rua pode desencadear uma reflexão sobre a exclusão social. Esses personagens estão em todos os lugares, em qualquer esquina, basta querer enxergá-los. Essa sensibilidade talvez precise de tempo ou de estímulo para aflorar. Infelizmente, noto baixos índices de leitura nas universidades, o que reduz bastante essas chances.

Vencida essa etapa, uma grande reportagem deve conter boas fontes, bons personagens e bons dados técnicos ou estatísticos que lhe garantam uma boa sustentação. As fontes conferem veracidade às informações, uma vez que o repórter não sabe tudo, não pode tudo e não está em todo lugar; os dados técnicos ou estatísticos dimensionam o assunto abordado, seja num contexto local, nacional ou mundial; os personagens humanizam a reportagem e fazem com que o leitor de alguma forma se sinta representado na história. Pode faltar um ou outro desses elementos, mas acho difícil construir uma boa história sem pelo menos dois desses itens.

Dentre as diversas reportagens que você produziu em sua carreira dentro da temática social, qual delas você considera que foi mais marcante?

A reportagem que mais me trouxe novas experiências profissionais foi a série "A infância no limite", um mergulho pelo submundo das extensas fronteiras brasileiras para traçar os mapas do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual comercial. Esse trabalho levou-me a importantes reflexões sobre os métodos, os dilemas e a ética no exercício do jornalismo. Acredito que me tornei um profissional mais preparado ao final dos 28 mil quilômetros de viagem para as investigações de campo.

Veja a primeira parte da entrevista.

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