16/11/2012

Diário de bordo, Rondônia, Brasil

Por: 

Maíra Streit

Quando soube que o Concurso Tim Lopes estava com as inscrições abertas, tive a certeza de que essa era a chance de contar uma história que me rondava há algum tempo. Pedi demissão e fui em busca de um veículo que tivesse o perfil daquela pauta, que me desse a liberdade para aprofundar a discussão e tratar com seriedade um tema tão delicado. Encontrado o meu “alvo”, era hora de convencer o editor. O problema é que a redação fica em São Paulo e eu moro em Brasília. Precisei de algumas semanas até apresentar o meu projeto e, quando deram sinal verde, senti a responsabilidade de fazer a ideia dar certo.      

Foi incrível ver o meu nome entre os escolhidos do Concurso, principalmente porque sabia que o grau de exigência seria alto devido à qualidade dos trabalhos finalistas. A denúncia é uma das ferramentas mais importantes do fazer jornalístico e, para mim, não há presente maior do que ter apoio para mergulhar em uma boa reportagem investigativa.   

A escolha da pauta foi rápida. Tendo que encontrar um foco ligado à violência sexual, lembrei da realidade de Rondônia, meu estado de origem. Cresci sendo testemunha de sérios problemas sociais que eram absolutamente ignorados pela imprensa local e nacional. O resto do país não sabe quem somos, o que fazemos e tampouco conhece as dificuldades que enfrentamos. Os habitantes da Amazônia ainda são vistos como seres exóticos, isolados da civilização e do modo de vida imposto como referência pelos grandes centros.  

Decidi, então, falar sobre a exploração sexual em comunidades ribeirinhas, formadas, em sua maior parte, por descendentes de povos indígenas. A questão afeta, principalmente, meninas em situação de extrema pobreza, o que reforça ainda mais a invisibilidade a que estão submetidas.  

Fui conhecer o meu colega de trabalho já em Rondônia, vindo de São Paulo especialmente para esse projeto. Tive sorte. Jesus é um repórter fotográfico experiente, que já viajou o mundo em busca de matérias tão desafiadoras quanto aquela que estávamos começando. E, acima de tudo, tinha bom humor. Em inevitáveis momentos de tensão, a ironia era fundamental para aplacar o cansaço, o incômodo com o calor excessivo e a preocupação com os rumos da reportagem.      

O centro da nossa investigação era Jaci Paraná, um distrito de 20 mil habitantes. Assim que chegamos, percebemos uma certa curiosidade entre os moradores. Todos tentavam saber o que aqueles dois intrusos queriam ao certo e, logo no início, vimos que seria difícil manter a discrição. As conversas com a população eram, geralmente, amistosas. O silêncio só tomava conta quando perguntávamos sobre a violência do local. 

Jaci é uma região dominada pelo medo. A rotina do lugarejo mudou muito com o intenso fluxo migratório ocorrido nos últimos anos. O tráfico de drogas parece incontrolável. Na área do Trilhal, é comum esbarrar em pessoas sob efeito de crack, que é consumido ali, entre as árvores. Dois jovens usuários, com seus cachimbos em punho, foram alguns dos nossos primeiros entrevistados.              

O episódio conhecido como “a chacina de Jaci”, resultado de um acerto de contas entre traficantes e milicianos no fim de 2011, ainda assusta. Os moradores têm medo de sair à noite e de dar qualquer declaração que possa ir contra os interesses desses grupos. Já havia passado mais da metade do tempo programado para a nossa viagem e eu ainda não tinha encontrado personagens que aceitassem dar depoimentos mais consistentes sobre casos de violência sexual.    

Na capital, Porto Velho, a 90 quilômetros dali, consegui dezenas de entrevistas interessantes com sociólogos, psicólogos, juízes, delegados e coordenadores de projetos sociais; mas era só chegar a Jaci para perceber a dificuldade de obter qualquer informação com a comunidade. Ganhar a confiança das fontes foi um exercício incessante de dedicação e paciência. E exigia, também, uma mudança de postura.      

Resolvi me despir completamente da “pose de jornalista”. Adaptei o meu jeito de vestir, de falar e procurei entender o que se passava no pensamento daqueles ribeirinhos. Fui resgatar na infância algumas referências e logo me vi bem à vontade contando sobre os fins de tarde em que eu, pequenininha, passeava pelo rio Madeira para ver os botos cor-de-rosa nadarem. Também falei de quando meu avô se perdeu na mata fechada durante uns dias e precisou sobreviver apenas do que a floresta oferecia. Em poucas conversas, eu já estava trocando com eles dicas sobre a melhor maneira de pescar tambaqui ou de preparar uma caldeirada.           

Mesmo tendo saído de Rondônia há tanto tempo, essa identificação foi muito importante para o meu trabalho. Sem perder o senso crítico necessário, a observação do cotidiano é indispensável para compreender o contexto em que vivem os nossos personagens. Ao final, muitos se sentiam agradecidos. Maic, um jovem esperto e falante, foi nosso guia pelos recônditos caminhos que levavam às periferias do lugar. Ele narrava histórias tão incríveis que pareciam saídas de um verdadeiro conto de fadas amazônico. Mas, infelizmente, os relatos que fomos buscar estavam longe de tudo isso. Eram tristes e reais.  

Outras pessoas fundamentais para o sucesso da nossa empreitada foram Ângela e Hélia, duas destemidas conselheiras tutelares. Coube a elas a função de localizar as adolescentes vítimas de exploração sexual. Frente a frente com as meninas, é difícil descrever o que vi e ouvi.                                                                                          

Embora os depoimentos fossem bastante fortes, o que mais me chocou talvez tenha sido a desesperança percebida em quase todas as entrevistadas, em uma mistura de inocência e resignação. Os olhares opacos abrigavam uma frieza desconcertante. A realidade árdua tinha roubado delas a vontade de sonhar, de acreditar em um rumo diferente, como se estivessem ali apenas para cumprir o destino a que foram designadas. Não consigo pensar em nada mais cruel ao falarmos de meninas que mal haviam completado os 15 anos de idade.

É impossível sair incólume de uma experiência como essa. Os últimos dias foram os mais desgastantes. Tivemos que solicitar escolta policial para desviar algumas tentativas de intimidação e, assim, continuarmos visitando festas e prostíbulos durante a madrugada. Não consigo avaliar com precisão o impacto que a reportagem teve ou terá na vida dessas pessoas, mas a presença delas na minha vida é mais do que evidente.

Como jornalista, acho que cumpri a missão. Mas como cidadã e filha daquela terra, ainda espero ver uma ação mais incisiva por parte dos responsáveis. Acredito que a indignação causada nos leitores da revista pode, sim, ser o primeiro passo para uma mobilização importante em prol da juventude rondoniense. Por fim, só me resta agradecer imensamente ao Concurso Tim Lopes pela oportunidade. Vida longa a essa iniciativa maravilhosa, que tanto tem estimulado os jornalistas a refletirem sobre o seu papel na transformação da sociedade brasileira, sobretudo no que diz respeito aos indispensáveis direitos infanto-juvenis.

Tags: 

  • Direitos e Justiça
  • ECA
  • Gênero
  • Políticas Públicas
  • Violência
  • Violência Sexual
  • Violência Institucional