03/05/2018

Do local para o global: o aprendizado a partir do conhecimento da própria comunidade

Por: 

Bruna Ribeiro*

Nos últimos meses, tive a oportunidade de constatar de perto o que muito se ouve no meio da educação – A melhor escola é aquela que usa os conhecimentos da própria comunidade para o aprendizado.

Em visita a uma escola ribeirinha, a 2 horas de barco do Porto de Manaus, no Rio Amazonas, acompanhei a apresentação de dança dos alunos, inspirada na Festival Folclórico de Parintins, uma festa popular realizada anualmente na cidade de Parintins, no Amazonas.

No lugar do ônibus escolar que passa de casa em casa, está o barco escolar. Grande parte das crianças são filhas de pescadores e agricultores locais. No caminho até a escola, o encontro das águas do Rio Negro e do Rio Solimões encanta, assim como o boto e a vitória-régia.

Elementos que podem ser vistos apenas nos livros pelas crianças de outras regiões estão ali, como parte dos saberes da comunidade local. A mesma sensação tive ao conversar com adolescentes de uma escola do bairro Arenoso, periferia de Salvador.

Moradores da capital com mais negros do país, os alunos falaram sobre seus projetos de vida e racismo, fizeram apresentação de dança-afro e falaram sobre uma biblioteca especializada em autores negros, criada na escola.

Partindo para um povoado de Indiaroba, no interior de Sergipe, as crianças têm forte intimidade com a literatura de cordel e com as comemorações de São João. Tudo isso demonstra de forma muito singela o que Paulo Freire dizia com educação para a consciência.

De nada adianta aprender o que está nos livros se a comunidade não está empoderada de seus saberes locais. A sabedoria popular tem muito a ensinar. Aprender a partir da realidade local é muito mais fácil.

Em Pedagogia do Oprimido, Freire propõe uma prática em sala de aula que incentive a criticidade dos alunos. A missão do professor deixa de ser transmitir e passa a possibilitar a criação e produção de conhecimentos, proporcionando que os indivíduos troquem e se eduquem entre si, mediados pelo mundo.

Como há muitos mundos dentro de um só, é preciso reconhecer as diversidades de nossas crianças e adolescentes, espalhadas pelas comunidades ribeirinhas, quilombolas, rurais e tantas outras no Brasil, cheias de riquezas e possibilidades de aprendizado. Transformando o local transformamos também o global.
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*Bruna Ribeiro é jornalista e especialista em Direito Internacional. Escreve no blog do Estadão sobre os direitos de crianças e adolescentes e para o projeto Chega de Trabalho Infantil.

[Fonte: Estadão]

 

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