27/03/2018

Empreendedorismo social e inovação na educação transformam o mundo

Por: 

Antonio Lovato, Helena Singer e María Mérola*

A educação como a conhecemos está com os dias contados. Nós nos referimos aqui ao sistema educacional centrado na instituição escolar, extremamente centralizado, hierarquizado, departamentalizado e voltado para a reprodução de conhecimentos simples e habilidades instrumentais, via estímulo da competição, da passividade e do individualismo.

Não há como esse sistema sobreviver neste século, quando a produção se realiza cada vez mais de modo aberto, por equipes fluídas, que se debruçam sobre problemas complexos, trabalhando em redes, valendo-se de plataformas e canais de distribuição que possibilitam o trabalho colaborativo e criativo de milhares de pessoas.

Reconhecer este momento histórico é condição básica para que possamos projetar a educação que precisamos para o novo mundo. É por esta razão que os debates sobre a inovação na educação deixam os espaços alternativos para entrar nas agendas de governos, organismos internacionais, universidades, empresas, redes.

Crescem as experiências e os movimentos pela educação inovadora, e movimento indica que o campo está se reorganizando de modo mais próximo ao do empreendedorismo social, que é o processo de criar estratégias e tecnologias com o objetivo de produzir mudanças positivas no mundo.

Quando se fala em inovação na educação, muitas vezes se remete ao uso das tecnologias digitais na escola. Mas estas dizem respeito a ferramentas, procedimentos, o que talvez seja inovação na produção industrial.

Na educação, sendo ela do campo social, a inovação diz respeito a conceito, processo, estrutura ou metodologia que enfrenta os desafios do presente, produzindo mudanças positivas no mundo.

E qual o sentido dessas mudanças, o que elas devem buscar superar? As desigualdades socioeconômicas, a degradação ambiental e os limites à democracia impostos pela concentração do poder econômico.

Por isso, efetivamente inovadoras são as iniciativas que se voltam para o fortalecimento de participação, responsabilidade, colaboração, empatia, transparência, criatividade e descentralização.

Característica básica da inovação social é ser criação daqueles que dela vão se beneficiar. Por isso não é possível replicar experiências inovadoras, como se elas pudessem gerar modelos prontos.

Mas isso não quer dizer que as experiências inovadoras não tenham relevância no debate sobre a transformação do sistema educacional. Sua relevância está no fato de que elas criam novos conceitos, processos, estruturas e metodologias, que podem indicar as mudanças necessárias nos vários elementos que constituem o ecossistema da educação.

Vejamos então algumas experiências inovadoras que hoje integram este movimento mundial crescente. Para ficarmos na América do Sul, na Argentina, a QMark High School, em Bariloche, decidiu inovar observando sua paisagem.

Os dias começam e terminam com longas caminhadas na montanha, e os estudantes têm oportunidade de identificar os problemas em sua comunidade e desenvolver pesquisas que possibilitem enfrentá-los, usando as ferramentas disponíveis em seu ambiente.

Foi assim que eles construíram um banheiro seco em 2016, que não polui o meio ambiente e, em 2017, criaram um aplicativo que ajuda os turistas a não se perderem nas estradas da montanha.

Novas propostas pedagógicas também ganham cada vez mais espaço entre as escolas brasileiras. Na Escola Estadual Alan Pinho Tabosa, na cidade de Pentecoste (CE), também de ensino médio, não há aulas como conhecemos.

Os estudantes sob orientação dos professores se organizam em células de aprendizagem e colaboram para resolver problemas. Reconhecem-se dessa forma como agentes de mudança, pensando criticamente sobre o mundo e trabalhando em equipe.

Há muitos outros exemplos, não só entre as escolas, mas também entre empreendimentos educativos de outra natureza.

O que essas iniciativas demonstram é que as aprendizagens mais importantes para que os jovens possam produzir mudanças positivas no mundo só podem acontecer em organizações educativas (escolas ou não) que se identificam como centros locais de produção e cultura, reinventando as estruturas, os processos e as metodologias para isso.
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*Antonio Lovato, engenheiro de gestão e coordenador de infância e juventude da Ashoka Brasil
Helena Singer, socióloga e vice-presidente da Ashoka América Latina
María Mérola, mestre em políticas públicas e diretora de juventude da Ashoka Argentina, Uruguai e Paraguai

[Fonte: Folha de S. Paulo]
 

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