13/01/2014

Escolha de livros didáticos

Por: 

Danielle Barriquello

A composição da lista de livros didáticos para o ano letivo é movida, muitas vezes, por algumas ações do professor vividas cotidianamente com este material didático: observa, avalia, acompanha, assume, relaciona, persevera, transgride, reformula, transpõe, aprofunda, aponta, compara, apoia, atrapalha, dialoga, confirma, constata, teoriza, fixa, exercita, diversifica, extrapola, reclama, suporta, cria, problematiza... Quanto mais volta a ação para reclamações constantes sobre o livro didático, maior a tendência para mudança. Mas será que este incômodo é motivo para mudar de material didático? Quem fez e por que fez essa escolha?

O que pode contribuir para a seleção cada vez mais refinada do livro didático é ter na escola a possibilidade de reflexão sobre o sentido pedagógico da escolha que foi realizada anteriormente. Quando se escolhe um material de apoio que irá colaborar na condução das aulas, reafirma-se um posicionamento sobre a concepção de aprendizagem assumida pela escola. E quando se abre espaço para discutir formas de ensinar e formas de aprender, um livro didático, com mais possibilidades de interlocução ligadas a essas intencionalidades, passa a ser o escolhido para o próximo ano letivo.

O trabalho com pautas de observação para análise do livro didático envolvendo a relação do material com as concepções metodológicas da escola, com o plano de ensino e com a trajetória anterior da escolha realizada, pode ser um caminho para escolhas mais estratégicas e principalmente documentadas. Esta pauta como memória e organizadora de intencionalidades, deve ser um registro sempre revisitado ao longo do ano letivo pelos professores, evitando as angústias e incertezas vividas na véspera de se entregar uma listagem de livros didáticos à coordenação pedagógica da escola. A lista de livros didáticos encaminhada passa a ser a "lista" de valores pedagógicos assumida por uma equipe de professores!

Segue uma sugestão de pauta de observação com um roteiro de perguntas para analisar o livro didático, tendo como referência também aspectos indicados pelo MEC: Quais livros didáticos foram adotados para este ano? Quais foram os professores que assumiram esta escolha? Haverá a permanência deles na série para 2014?

Quais as características pedagógicas de cada obra, seus pontos fortes e suas limitações? Quais foram os motivos indicados anteriormente pelos professores e coordenações na escolha de determinado livro didático? Há registros escritos sobre este posicionamento assumido para ser revisitado neste momento de reavaliação? As dúvidas e insatisfações sobre a escolha realizada foram confirmadas? Que movimentos pedagógicos surgiram como contraponto ao livro didático? A forma de abordagem e das linguagens dos textos, imagens, atividades, sugestões de aprofundamento revela, em partes, a concepção de aprendizagem assumida pela escola? No desenvolvimento dos conteúdos indicados pelo livro didático, percebe-se a utilização de estratégias que promovam reflexões e abertura para discussões?

Há erros conceituais, preconceitos, inconsistências metodológicas, problemas em aspectos gráficos? A seleção de conteúdos é adequada? A sequência em que são apresentados obedece à progressão da aprendizagem planejada por sua escola? Esse livro didático colabora com a flexibilização das aprendizagens, permitindo seu uso de forma descontínua? Algumas abordagens colaboram na condução de propostas mais interdisciplinares, possibilitando o surgimento de projetos inéditos ou acentuando o convívio curricular com as áreas de conhecimento? Algumas das atividades propostas podem compor estratégias avaliativas? As imagens selecionadas para um livro promovem que tipo de análise do ser humano e dos fenômenos? Propiciam a constituição de cenas que revelam experiências ricas para os sujeitos? Há possibilidades de interface com as tecnologias? O conjunto de conteúdos, assim como o tratamento didático dado a eles, é adequado para o aluno e está de acordo com o currículo? O manual do professor contribuiu para um melhor uso do material?

O livro didático deve ocupar um lugar de coadjuvante na atuação do professor para promoção das aprendizagens, mesmo que neste período escolar queira se colocar como protagonista, em virtude do investimento de tempo que se faz na escola sobre a escolha dos materiais para o próximo ano letivo. Que o protagonismo da relação professor e aluno com o conhecimento encontre no livro didático algumas cenas de apoio para a vivência de aprendizagens mais significativas!

*Danielle Barriquello é psicóloga e assessora educacional da Rede de Colégios do Grupo Marista.

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