10/08/2012

Geração estéril

Por: 

Equipe ANDI

Lamentável os ataques sofridos pelo jornalista Marcelo Canellas, em função da reportagem produzida para o Fantástico a respeito das violações cometidas contra os adolescentes em conflito com a lei no Brasil. A reação em massa após a abordagem humanizada e contextualizada da matéria, qualidades de Canellas, revelam que a noção da pena imposta a juventude envolvida em atos infracionais continua sendo vinculada a uma raiva contra quem cometeu o delito. Ao adolescente negro, pobre e excluído não cabe ressocialização, apenas punição e intolerância. Infelizmente, a desinformação sobre a realidade dessa população alimenta a visão equivocada sobre o tema no País. Será que os internautas que se manifestaram sabem que esses jovens são em sua maioria muito mais vítimas do que autores da violência? Que entre os mais de 20 mil adolescentes que cumprem a medida de privação de liberdade em Minas Gerais menos de 0,5% cometeram homicídio? Por outro lado, 90% dos adolescentes que cumprem medidas sócioeducativas em unidades de atendimento mineiras foram vítimas da violência doméstica ou sofreram algum tipo de abuso sexual. Talvez isso importe menos quando o que se busca é criminalizar a infância e a juventude brasileira. Fico aqui com a psicóloga Nathália Meneghine. Para ela, o fato de garotos estarem à frente de ações de violência é preocupante. Mais ainda é ver meninos pobres, sem amor e sem limites serem alçados ao posto de bandidos contumazes. Uma geração condenada a esterilidade, considerada incapaz de produzir bons frutos, só ganha visibilidade em discursos que visam o encarceramento ou reforçam a exclusão. O fato é que uma sociedade que tem medo de seus jovens e protege-se contra eles ao invés de protegê-los avança rapidamente em direção ao passado de barbárie.

Daniela Arbex, repórter especial do Jornal Tribuna de Minas

Tags: 

  • Cidadania
  • Direitos Humanos
  • ECA
  • Medidas Socioeducativas
  • Violência