21/03/2019

Nenhum menino ou menina deveria sentir medo de ir à escola

Por: 

Bruna Ribeiro*

Por mais que a gente lide com a insegurança em nosso cotidiano, alguns ambientes nos trazem a sensação de proteção. A escola deveria ser um deles. Nenhum menino ou menina deveria sentir medo de ir à escola, como bem disse uma campanha do UNICEF nas redes sociais.

O ataque à Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, na Grande São Paulo, na manhã de quarta-feira (13), choca, entristece e levanta também muitos questionamentos a respeito dos motivos que levaram uma barbaridade dessas a acontecer.

Foram dez mortos e 11 feridos. Em meio ao legítimo clamor por segurança, o que ainda não é uma demanda social é a implementação da cultura de paz e educação em direitos humanos nas escolas.

A solução não é armar os professores. Nas palavras de Malala, ativista paquistanesa e Prêmio Nobel, “uma criança, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”.

O papel da escola não é unicamente ensinar disciplinas. A escola faz, sim, parte de um sistema de garantia de direitos e tem uma função essencial na construção da cidadania.

É importante a atuação articulada com os demais atores, como assistência social, cultura, habitação e saúde física e mental.

A escola é uma ponte entre a vida familiar e a vida pública e muitas vezes é o professor quem consegue identificar possíveis transtornos de comportamentos, quadros de depressão e até de violência doméstica.

Educação integral não é apenas escola em tempo integral, mas o desenvolvimento completo do ser humano nas suas mais diversas dimensões.

Falar em racismo, bullying, homofobia e todas as questões que envolvem a vida é também educar. É preciso construir junto, incentivar a reflexão, o pensamento crítico e a promoção da paz, do respeito e da valorização à vida. Claro que não é apenas responsabilidade da escola, mas também das famílias e da sociedade como um todo.

Falta de estrutura nas escolas

Além de todas essas nuances da educação, para Ariel de Castro Alves – advogado, especialista em direitos humanos, segurança pública e em direitos da infância e juventude – a segurança nas escolas públicas é precária.

“Não existe a obrigatoriedade de uso, nem o fornecimento de uniformes aos alunos. Não tem controle de entrada nas escolas, com carteirinhas magnéticas ou mesmo carteirinhas com fotos. Muitas vezes não tem sequer funcionários nas portas de entrada das escolas verificando quem é ou não aluno. A falta de estrutura das escolas e a violência, como o bullying, favorecem essas tragédias. A exclusão e marginalização dos alunos no ambiente escolar também gera violência”, diz.

Ainda de acordo com Alves, que é também conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Direitos Humanos de São Paulo), a defesa pela diminuição dos recursos para a educação e a ampliação do acesso as armas pode gerar mais tragédias como essa.

Professores mediadores

Alves se lembra da importância da atuação de professores mediadores e equipes técnicas de psicólogos e assistentes sociais.

“A melhor prevenção é através do diálogo e da relação de confiança entre estudantes e educadores, para que os jovens alertem sobre as situações de violência atuais e futuras. Dessa forma, os pais, a polícia, os conselhos tutelares, as promotorias e Varas da Infância e Juventude devem ser acionados.”

No caso de Suzano, segundo o advogado, o Estado terá de indenizar as famílias das vítimas, já que elas estavam sob a responsabilidade do Governo, que deveria garantir a integridade e a vida delas.
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*Bruna Ribeiro é jornalista e especialista em Direito Internacional. Trabalhou em Veja São Paulo, no Estadão e no Jornal da Tarde. Escreve para o projeto Chega de Trabalho Infantil.

[Fonte: Blog Direitos da Criança e do Adolescente, Estadão]

 

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