16/05/2012

"O jornalismo é um instrumento transformador de pessoas e realidades", afirma Mauri König

Por: 

Equipe ANDI

Jornalista Amigo da Criança desde 2003, Mauri König é repórter especial da Gazeta do Povo. Em 22 anos de carreira, conquistou 22 prêmios de jornalismo, entre eles dois Esso, dois Embratel, quatro Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Vencedor de duas edições do Concurso Tim Lopes de Jornalismo Investigativo, promovido pela ANDI e pela Childhood Brasil, tem ampla experiência na cobertura em direitos humanos, em especial exploração sexual de crianças e adolescentes. Publicou em 2008 o livro-reportagem "Narrativas de um correspondente de rua", finalista do Prêmio Jabuti.

Mauri foi convidado pela ANDI a debater os desafios da profissão, principalmente quando se trata da cobertura na área de direitos humanos. Aqui, é possível ler parte da entrevista. Outros trechos serão publicados ainda esta semana.

Como a imprensa deve se preparar para cobrir de forma adequada as questões relacionadas a violência sexual contra crianças e adolescentes neste período de preparação e durante as competições esportivas que o Brasil receberá nos próximos anos?

A leitura diária e o conhecimento do assunto que se quer tratar são fundamentais. No caso específico da má cobertura pela imprensa do tema infância e violência, no Brasil, está diretamente relacionada ao desconhecimento ou desinteresse do jornalista. Grande parte desconhece os diversos organismos governamentais e não governamentais que dispõem de dados sobre a temática. Por exemplo: na cobertura jornalística de um crime sofrido ou praticado por crianças ou adolescentes, em geral é lançada sobre a família uma responsabilidade excessiva, sem que se faça a contextualização daquela ocorrência ou uma abordagem sobre a falta de políticas públicas de atendimento aos jovens e às famílias vulneráveis à pobreza. O mesmo acontece no caso da violência sexual.

De forma geral, os meios de comunicação não enxergam o contexto da violência porque não discutem soluções para o problema. O conjunto da imprensa se preocupa muito pouco em apresentar as causas, e menos ainda em apresentar soluções. Em uma cobertura ideal seria importante não só discutir soluções, mas também narrar os casos de violência com a trajetória e história de vida das vítimas e dos agressores, pois suas biografias revelam os determinantes sociais, culturais e econômicos, o que poderia revelar causas, contextos e fatores que os levaram à violência. A qualificação da cobertura jornalística passa, portanto, pelo entendimento mais a fundo dos casos retratados na imprensa e pela qualificação do profissional de comunicação.

Ao longo desses anos, houve um crescimento exponencial na oferta de tecnologias e de ferramentas de comunicação. De que forma isso contribuiu para o aprimoramento da prática jornalística investigativa? Há prejuízos também? Que dificuldades permanecem, apesar desses instrumentos?

O sedentarismo característico da sociedade moderna impregnou também as redações. As novas tecnologias reduziram não só o tempo entre os acontecimentos e os receptores, reduziram os ânimos dos jornalistas. A internet inaugurou um novo tempo no jornalismo, um tempo de experimentações e imediatismo. Antes, notícia boa era notícia bem apurada; hoje, notícia boa é notícia publicada um segundo antes que o concorrente. E assim derrubam-se aviões que não caíram, prende-se quem não foi preso, mata-se quem não morreu.

A pressa tem engrossado o anedotário jornalístico. O leitor, com o tempo, vai se dando conta disso. A grande reportagem ainda é e sempre será a alma do jornalismo. Ela pode até arrefecer diante dessas novidades, mas nunca morrerá. Felizmente ainda existem repórteres dispostos a contrariar essas tendências. No entanto, as facilidades trazidas pelas novas tecnologias não podem estar dissociadas do uso ético das informações obtidas por meio desses recursos.

O uso de métodos ilícitos para obter informações pode desqualificá-las. Embora alguns códigos possam dar um norteamento profissional, ética é algo de foro íntimo. E isso não vale só para jornalistas. Todo profissional, independente de qual ofício exerça, deve fazê-lo com tal zelo de forma que dele não se desvirtue nem se lance dúvidas. A imprensa brasileira tem muitos e bons exemplos de como se pode desvendar casos obscuros em usar métodos escusos. No caso das microcâmeras, acredito que há um desvio no debate. A discussão não deveria estar tanto na forma como se obtém as imagens, mas no uso que se faz delas.

Em algumas reportagens, já usei disfarce, embora não no sentido liberal, e também já recorri à câmera oculta para obter informações. Entre 2004 e 2005, por exemplo, percorri 28 mil quilômetros pelas fronteiras do Brasil junto com o fotógrafo Albari Rosa para traçar um mapa do tráfico de pessoas para fins de exploração sexual comercial de crianças e adolescentes. A intenção era mostrar de onde eram tirados e para onde eram levadas para essa finalidade. Nossos ambientes de trabalho eram a boca do lixo, as boates das fronteiras, as ruas de prostituição, os mocós do tráfico de drogas. Enfim, o submundo. Em lugares assim, não se chega com crachá da imprensa. Nossas credenciais de imprensa só eram mostradas para fontes oficiais, como polícia, conselheiros tutelares e outros agentes públicos.

Portanto, transitamos por esses lugares como "turistas acidentais". Desta forma obtivemos grande parte das imagens e informações constantes na série "Infância no limite". Nesta nossa observação participante, misturamo-nos aos clientes das redes de prostituição para conseguir informações de cocheira, inviáveis senão pelo anonimato. As conversas surgiram de forma espontânea, sem o emprego de recursos espúrios ou coação. Tomamos esses cuidados para evitar que o método de apuração pudesse desqualificar o resultado final do trabalho ou levá-lo a questionamentos ético ou legal. Também usei microcâmeras em outras coberturas jornalísticas, muitas vezes apenas para me resguardar no caso de algum eventual processo judicial.

O que o motiva a dedicar seu tempo e carreira para pautar e apurar temas tão velados e que envolvem questões tão delicadas?

A transformação de pessoas e realidades, isso é o que me move a temas tão velados e de interesse público. O jornalismo é antes de tudo um instrumento transformador de pessoas e realidades. Cada reportagem pode ser um estopim de mudanças ao interferir na realidade naquilo que ela apresenta de mais injusto, ou a partir do instante em que leva o leitor  à reflexão. Para quem vive da escrita, não há nada mais frustrante do que não ser lido. Escrever para ninguém é se anular profissionalmente, é aniquilar sua ética intrínseca. Invariavelmente, o jornalismo burocrático cai nesse buraco negro. Preocupa-me saber que, hoje, os responsáveis pelo jornalismo de amanhã estão dispostos a se lançar ao niilismo em troca de 30 moedas.

Reconforta-me, no entanto, saber que ainda restam profissionais fiéis aos preceitos dos bastiões do bom jornalismo. Sabemos que o dia-a-dia de uma redação pode abalar qualquer visão romântica. Afinal, empresa de comunicação visa lucro como qualquer outra empresa. Mas cabe ao jornalista o papel de evitar que o interesse econômico se sobreponha ao interesse público. Mesmo nesse contexto é possível fazer jornalismo sério e de qualidade.

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