18/02/2014

O papel da música na formação escolar da criança

Por: 

Leila Sugahara*

A função cultural, social e de expressão de sentimentos da música é inquestionável. A música está sempre presente em todas as sociedades e faz parte de ritos e cerimônias, como nascimento, casamento e até a morte. Desde 2008, a iniciação ao aprendizado de música tornou-se obrigatória na disciplina de Artes em todas as escolas do país. A música permite uma forma de linguagem acessível a todos, contribuindo para o desenvolvimento de um nível de escuta mais crítico e prazeroso.

A música contribui para o desenvolvimento integral da criança nas suas dimensões afetiva, cognitiva, motora e social. Ela provoca sentimentos de bem-estar, organiza os movimentos, promove uma melhor interação, desenvolve a atenção e a concentração. O repertório musical de escuta de uma pessoa é desenvolvido ao longo da sua vida, de acordo com o meio social em que está inserida e pelas experiências significativas que teve com a música ou a partir da música.

No meio acadêmico, a música pode e deve ser utilizada como um recurso didático. Trata-se de uma forma de conhecimento e linguagem que pode ajudar as pessoas a desenvolver um outro nível de escuta, pelo qual a música deixaria de ser apenas um pano de fundo para outras atividades, passando a ter significado próprio.

Por outro lado, a música é por natureza interdisciplinar. Podemos classificá-la como uma linguagem ao mesmo tempo matemática e afetiva, que possibilita transpor limites geográficos e temporais, sempre inserida em um contexto social. A música na escola deve ser integrada como um conteúdo específico, mas sem perder de vista as possibilidades inter e transdisciplinares que ela oferece.

Por ter essas características, muitos professores costumam utilizar letras de músicas nas aulas de Português e História, com o objetivo de facilitar o aprendizado dessas disciplinas. Há poucos dias, um aluno me contou que o professor de História, falando do período da ditadura militar no Brasil, levou canções de Chico Buarque e Caetano Veloso (ambos representantes da nossa cena e história nacional) para eles escutarem. Ele e alguns colegas, que conheciam as músicas e estudam ou estudaram música, ficaram emocionados porque conseguiram entender o que escutavam. E esse entendimento, essa compreensão requer a ativação de um nível de escuta que se torna possível a partir de uma educação musical sistemática.

Podemos ver exemplos semelhantes com pessoas que conseguem identificar o som de apenas um instrumento em uma banda, um concerto ou um grande espetáculo. A partir disso, ocorre uma ampliação desse nível de escuta que permite fazer escolhas conscientes do que se quer ou se gosta de ouvir. A escuta consciente não é só no nível da cognição, mas envolve necessariamente os aspectos afetivos e sociais. Geralmente, gostamos mais de músicas que escutávamos na nossa adolescência, justamente porque é uma fase predominantemente afetiva, de descobertas, de paixões ou de conflitos. Também lembramos mais das músicas da nossa infância, principalmente por nos remeterem a um tempo em que tínhamos nossos pais e avós por perto.

Além das questões sociais e afetivas, a música traz benefícios no desenvolvimento do raciocínio de crianças com acesso à música. A teoria psicogenética de Henri Wallon diz que o desenvolvimento intelectual envolve também corpo e emoções; é nesse sentido que se pode afirmar que a música contribui para o desenvolvimento integral da criança nas suas dimensões afetiva, cognitiva, motora e social.

Com base na teoria walloniana, ao escutar uma música, uma pessoa percebe as vibrações sonoras nela contidas, sendo afetada organicamente por essas vibrações, ou seja, pela dimensão afetiva e exteriorizada através da dimensão motora. Essa primeira reação à música são sensações que podem ser descritas, às vezes, como um frio na barriga ou um coração acelerado, que se revela como um gesto, uma lágrima, um sorriso ou um movimento. Essa sensação inicial é o que chamamos de emoção.

Ouvir música, então, pode fazer lembrar, rir, chorar, dançar, cantar, desenhar, escrever, estudar e até trabalhar. Portanto, o processo da escuta musical envolve todas as dimensões que constituem uma pessoa e, desta forma, favorece o desenvolvimento como um todo.

As crianças que não têm acesso à música, ou à educação musical, perdem a oportunidade de desenvolver plenamente o seu potencial. Portanto, quanto mais um professor sabe ou conhece sobre música e sobre os recursos pedagógicos necessários para apresentá-la às crianças, mais pode ajudar a ampliar as suas experiências de escuta, contribuindo de forma abrangente e efetiva no processo de desenvolvimento e aprendizagem dessas crianças até a fase adulta.

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*Doutora e mestre em Educação: Psicologia da Educação pela PUC-SP, e professora de Prática de Ensino e supervisora de estágio no curso de Licenciatura em Música da Faculdade Cantareira.

 

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