18/04/2017

Olhar para sala de aula

Por: 

Antônio Gois*

Estudo no Ceará mostra que observação e orientação ao trabalho de professores podem melhorar a qualidade do ensino

Em 2014, o Banco Mundial divulgou no livro “Professores Excelentes”, de Barbara Bruns e Javier Luque, um estudo baseado na observação de 15 mil salas de aula em sete países da América Latina e Caribe, incluindo o Brasil. A pesquisa mostrou que professores da região perdiam demasiado tempo de instrução com tarefas como fazer chamada, limpar ou escrever no quadro negro, corrigir deveres ou distribuir trabalhos aos alunos. O estudo identificou também algo peculiar: em algumas situações, havia enorme variância na qualidade do uso do tempo entre professores da mesma escola e que, portanto, davam aulas para os mesmos alunos, em iguais condições de trabalho. Sem negar a influência de fatores externos na aprendizagem, esta conclusão sugeria que havia margem para melhorar a aprendizagem se houvesse mais troca e suporte ao trabalho dos docentes.

O trabalho inspirou um projeto que teve início em 2015 em escolas públicas de ensino médio do Ceará, com apoio da Fundação Lemann e da consultoria Elos Educacional. Dois grupos de escolas foram selecionados aleatoriamente para fazerem parte de uma avaliação conduzida por Barbara Bruns, Leandro Costa e Nina Cunha, pesquisadores, respectivamente, do Center for Global Development, do Banco Mundial, e da Universidade Stanford. Um grupo de estabelecimentos foi sorteado e recebeu treinamento sobre como realizar práticas de observação de sala de aula, com o objetivo de dar um retorno do trabalho aos professores e promover maior interação entre os profissionais da escola. O conteúdo do treinamento era também inspirado em técnicas de sala de aula de bons professores descritas nos livros do educador americano Doug Lemov (um deles traduzido no Brasil com o título “Aula Nota Dez”).

Ao comparar o resultado de escolas que participaram do treinamento com o daquelas que, de forma aleatória, não tiveram acesso ao programa, os pesquisadores identificaram que professores das escolas beneficiadas aumentaram em 10% o tempo de aula efetivamente dedicado a ensinar, passaram a usar métodos mais interativos com alunos, e mantiveram um número maior de estudantes engajados na aula por mais tempo. Houve ganhos também – porém mais modestos — identificados em resultados de aprendizagem dos alunos medidos pelo Enem e pelo sistema de avaliação local. Em escolas onde os coordenadores pedagógicos, pelos critérios da pesquisa, foram considerados melhores, os ganhos de aprendizagem foram mais significativos. Para os autores, os resultados são promissores, considerando o baixo custo de implementação do projeto, já que a maior parte do treinamento foi à distância.

A ideia de que o trabalho do professor em sala de aula pode ser observado e avaliado — mesmo que seja pelo diretor ou coordenador pedagógico da escola — encontra resistência em educadores brasileiros. A crítica mais comum é de que tal prática fere a autonomia docente, ou de que seria apenas um pretexto para vigiar e punir, colocando a culpa pelo fracasso do estudante nos ombros dos professores. O que alguns veem como vigilância e controle, porém, pode ser encarado como apoio e suporte. A chave para isso é, como sempre, a construção de relações de confiança entre os profissionais da escola, com foco em quem mais importa no processo educativo: o aluno.
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*Antônio Gois é jornalista e colunista do GLOBO, especializado em educação.

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[Fonte: O Globo]

 

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