28/11/2016

Os limites da educação na mobilidade social

Por: 

Maria Alice Setubal*

O quanto a educação dos pais influencia a vida dos filhos? Na semana passada, o IBGE divulgou os resultados de uma pesquisa sobre mobilidade sócio-ocupacional que nos ajuda a responder esta questão. Os dados comprovaram o que muitos educadores e também indicadores  --como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)--  já sinalizavam: a situação dos pais ainda é determinante para renda, escolaridade e emprego dos filhos.

Segundo o estudo, quase metade das pessoas com mais de 25 anos avançaram na escolaridade em comparação com seus pais. Contudo, esse salto está diretamente relacionado à escolaridade deles. Por exemplo, constatou-se que apenas 4% das pessoas cujos pais não tinha nenhuma instrução conseguiu completar o Ensino Superior, e mais de três em cada quatro filhos de pais analfabetos não concluíram o Ensino Médio.

Quando olhamos para famílias com pais que têm Ensino Superior completo, 69% dos filhos concluem este nível de ensino. A pesquisa destaca também que o convívio com a mãe tem um impacto maior na trajetória educacional das crianças e jovens, comparando as diferenças entre famílias chefiadas por mães, pais ou ambos.

Os dados ainda revelam que os salários dos pais e suas profissões têm relação com a idade em que os filhos começam a trabalhar e com seus futuros rendimentos. É importante destacar que existe uma grande barreira para os filhos cujos pais não têm instrução alguma. Mesmo quando os jovens completam o Ensino Superior, seus salários ficam em torno de R$ 2.603. Para jovens cujos pais possuem Ensino Superior Completo, esse número sobre para R$6.739 --158% a mais.

Mais uma vez, constata-se que no Brasil ainda muitos avançam pouco e recebem pouco, enquanto poucos avançam muito e recebem muito. Mas, afinal, por que isso acontece? No caso específico da educação, pesquisas do Cenpec têm apontado os ganhos de uma escola de tempo integral no Ensino Médio em diversas redes estaduais brasileiras. No entanto, elas seguem essa cultura de privilegiar uma minoria que já tem um nível socioeconômico mais alto, enquanto a maioria dos estudantes frequentam a escola regular com uma precária qualidade do ensino, expressa nos baixos índices das avaliações.

Essa situação das escolas integrais é reforçada por um ambiente culturalmente mais avançado, que contribui para a maior qualidade da escola, assim como amplia as possibilidades de contatos e de redes a que esses estudantes têm acesso. Por exemplo, um aluno de uma escola na qual os pais possuem empregos e níveis educacionais melhores poderá no futuro ser indicado para uma boa vaga de emprego por um destes pais, oportunidade que alunos de escolas com famílias mais vulneráveis não têm. Assim, assistimos a uma espiral positiva que certamente trará impactos favoráveis na trajetória desses alunos. O mesmo fenômeno acontece nas escolas técnicas estaduais ou federais que selecionam a entrada de seus alunos.

É urgente debatermos essa cultura da desigualdade que está impregnada nos mais diferentes setores da sociedade com o discurso de que é melhor oferecer qualidade para alguns, pois pelo menos esses são salvos, do que não oferecer uma boa educação para nenhum.

Para termos um Brasil mais igual, precisamos dar mais a quem tem menos, priorizando a universalização dos direitos, e não apenas das políticas. Isso exige políticas de longo prazo, customizadas de acordo com os diferentes territórios que apresentam diferentes realidades.

Obviamente, a implantação de políticas para setores e territórios de alta vulnerabilidade social requer custos, muitas vezes mais altos. Mas é importante termos uma visão de longo prazo que inclua a todos, ainda que de forma gradual. O que não podemos mais admitir é a implantação de políticas que privilegiam poucos enquanto não há um planejamento para a igualdade de direitos de todos.

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*Maria Alice Setubal, a Neca Setubal, é socióloga e educadora. Doutora em psicologia da educação, preside os conselhos do Cenpec e da Fundação Tide Setubal e pesquisa educação, desigualdades e territórios vulneráveis.

[Fonte: UOL Educação]

 

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