05/12/2016

País diminuiu suas taxas de evasão e repetência, mas perde com os jovens fora da escola o mesmo que gasta no ensino médio

Por: 

Antônio Gois*

Duas pesquisas divulgadas na semana passada trouxeram dados atualizados sobre evasão no país. Na sexta-feira, a Síntese de Indicadores Sociais do IBGE mostrou que 13% dos jovens de 15 a 17 anos haviam parado de estudar precocemente, antes de concluir o ensino médio. A maioria (61%) desse grupo fora da escola abandonou a sala de aula antes mesmo de completar o ensino fundamental, percentual que é ainda maior (chega a 70%) entre os que estão entre os 20% mais pobres da população. 

A evasão está muito ligada à repetência e ao consequente atraso escolar. O Brasil até recentemente (em 2000) figurava nas estatísticas da Unesco entre os dez países do mundo com maiores taxas de reprovação no ensino fundamental. Isso se refletia no atraso escolar. Em 2005, 37% dos estudantes de 15 a 17 anos estavam matriculados em séries que já deveriam ter concluído pela sua idade. Dez anos depois, o percentual caiu para 26%. 

Ainda assim, é uma estatística preocupante, por mostrar que o país ainda abusa de uma das estratégias mais ineficazes para resolver o problema da baixa aprendizagem: reprovar o aluno. A literatura acadêmica sobre este tópico (veja coluna sobre o tema aqui) é contundente em apontar que, além de não aprender mais no ano seguinte, a reprovação só eleva as chances de o jovem abandonar a escola, especialmente se for de uma família baixa renda. Claro que simplesmente passar o aluno de ano sem que ele tenha aprendido não resolve o problema, causado pela baixa qualidade do ensino. 

É sabido que a reprovação, além de ineficaz como estratégia pedagógica, gera também enormes custos financeiros, pois faz com que o aluno passe mais tempo na escola sem que esteja aprendendo mais com isso. Mas um estudo divulgado na segunda-feira passada mostrou que os prejuízos do abandono escolar (consequência em boa parte da baixa aprendizagem e da repetência) são muito maiores do que os já conhecidos.  

O trabalho é de autoria dos pesquisadores Ricardo Paes de Barros, Samuel Franco, Gabriela Gall, Beatriz Garcia e Rosane Mendonça (UFF), e foi encomendado pela Fundação Brava, Insper, Instituto Ayrton Senna e Instituto Unibanco. Na pesquisa, os autores primeiro calcularam o prejuízo financeiro individual que um aluno tinha por não conseguir completar o ensino médio, já que o rendimento médio no mercado de trabalho é menor entre aqueles que não chegaram a concluir essa etapa. Considerando o total de jovens nessa situação, a conclusão é de que, para o conjunto do país, há um custo privado da ordem de R$ 14 bilhões por ano, se somados os prejuízos individuais que cada um desses jovens terão na vida.

Paes de Barros e sua equipe também estimaram em outros R$ 35 bilhões por ano o que eles chamaram de custo social com a evasão, pagos por toda a sociedade. Nesta conta entram gastos com saúde pública, segurança, valores que deixam de ser arrecadados com impostos, entre outras variáveis que, comprovadamente, são afetadas pela menor escolaridade do indivíduo. Se somados esses R$ 35 bilhões com os R$ 14 bilhões do custo privado, chegamos a uma quantia de R$ 49 bilhões anuais. Este valor, segundo os autores, é praticamente o gasto que o país tem hoje com o ensino médio no país, da ordem de R$ 50 bilhões anuais. 

Ou seja, o mesmo valor que investimos nos que ainda estão em sala de aula é perdido com os que a abandonaram.
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*Antônio Gois é Jornalista Amigo da Criança, colunista do GLOBO e comentarista do Canal Futura de educação, tema que cobre desde 1996.

 

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