18/07/2016

Precisamos cuidar das crianças no meio ambiente virtual

Por: 

Ekaterine Karageorgiadis*

Fazer vídeos para postá-los na internet é um modo de expressão promovido pelas novas tecnologias de comunicação e informação, e as crianças não estão alheias a isso. Os chamados youtubers, vlogers e blogueiros mirins são um fenômeno da atualidade. Em um acesso rápido ao YouTube, por exemplo, é possível acessar inúmeros vídeos feitos por crianças que apresentam suas vidas a quem quiser assistir. Em seus canais, além de suas imagens e dados pessoais como nome, idade e cidade em que vivem, estão suas casas, seus irmãos – muitos deles bebês de colo, seus animais de estimação e seus bens de consumo.

No período de volta às aulas, proliferam no YouTube vídeos sobre “meu material escolar”. As crianças comentam as propriedades e preços de mochilas, estojos, cadernos e lápis. Revelam quais compraram e quais ganharam das empresas fabricantes. Na Páscoa, o sucesso é o desembrulhar dos ovos de chocolate, para mostrar aos espectadores seus diversos conteúdos: brinquedos, bonecos, maquiagens, copos, relógios etc. No Dia das Crianças e no Natal, são muitos os brinquedos que aparecem em centenas de vídeos. Além disso, os inúmeros presentes recebidos pelas crianças youtubers ao longo do ano geram outra categoria de vídeos, que são os “recebidos”, sejam do mês, acumulados ou atrasados.

As empresas enviam seus produtos às crianças com destaque nas redes sociais como YouTube, Facebook, Instagram, Snapshat porque sabem que elas têm milhares de seguidores, e os conteúdos que veiculam milhões de visualizações. A fama é alimentada com novas postagens sobre novos produtos, e também pela presença em “encontrinhos” promovidos por empresas, em que os youtubers famosos de várias regiões do Brasil recebem seus fãs, também crianças. Tiram fotos, fazem vídeos e, claro, recebem presentes.

Nesse contexto, os anúncios comerciais estão saindo da televisão para serem feitos por crianças para crianças, dentro das redes sociais. Seus vídeos são muito mais longos do que as publicidades televisivas, são mais baratos, conferem maior credibilidade ao produto, e, conforme a realidade demonstra, não dependem de autorização judicial para a participação da criança. Muito mais rentáveis, portanto, especialmente para anunciantes e plataformas que hospedam os conteúdos, a ponto de existirem agências especializadas em fazer a ponte entre as marcas e os canais infantis.

No computador, no tablet ou no smartphone, os fãs acessam livremente os conteúdos de seus ídolos, e compartilham com seus amigos. Inspiram-se nas crianças famosas, almejam tudo o que dizem e fazem, querem tudo o que têm e anunciam, e muitos deles começam a postar seus próprios vídeos, à espera de visibilidade e sucesso. Alguns alcançarão a fama esperada e, assim, nasce uma nova geração de crianças anunciantes em substituição àquelas que deixaram de ser crianças.

Urge assim tratar com seriedade de assuntos como sustentabilidade ambiental, publicidade infantil, consumismo, uso da criança como promotora de vendas, exploração da imagem da criança, trabalho infantil, proteção de dados, privacidade. É preciso olhar a criança de hoje e sua relação com o mundo que a rodeia, real e virtual, com especial atenção à segurança física e psíquica das crianças produtoras de conteúdo ou espectadoras, cujos direitos devem sempre ser assegurados com absoluta prioridade, pelo Estado, família, sociedade e empresas como determina o artigo 227 da Constituição Federal, e não podem ser deixados de lado em benefício de interesses puramente comerciais.
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*Ekaterine Karageorgiadis é advogada do Instituto Alana, nos projetos Criança e Consumo e Prioridade Absoluta, e especialista em Direito do Consumidor.

[Fonte: Conexão Planeta]

 

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