28/10/2015

Qualquer creche não é uma boa creche

Por: 

Eduardo Queiroz

A tão desejada vaga no Ensino infantil costuma ser vista como a chance de a criança ficar em segurança por algumas horas, para que os pais possam trabalhar. Ninguém duvida que essa tranquilidade para a família seja importante. Mas é a qualidade do tempo na Escola o ponto crucial para a verdadeira transformação do futuro da criança. Desde os anos 1990, estudos científicos mostram que cursar Ensino infantil beneficia o jovem em sua vida Escolar. Calcado nessas evidências, o Plano Nacional de Educação determinou o aumento das matrículas nessa etapa.

Pesquisas mais recentes revelam, porém, que a simples matrícula da criança em Creches ou Pré-Escolas é insuficiente para que ela se beneficie educacionalmente no futuro. O que é muito preocupante aqui é que o efeito do Ensino infantil parece limitado justamente para a população mais desfavorável socialmente — a que mais precisaria de um impulso.

Trabalho do pesquisador Daniel Santos, da Universidade de São Paulo, mostra que passar pela Creche não causa impacto positivo na vida Escolar dos Alunos mais desfavorecidos. Entre as crianças que foram à Creche e tinham mãe com o Ensino fundamental incompleto foi detectado desempenho até pior em testes de aprendizagem do que colegas com o mesmo perfil, mas que não cursaram essa etapa do Ensino infantil.

A medição foi feita quando os estudantes chegaram ao 5° ano do Ensino fundamental, no exame de matemática da Prova Brasil (avaliação federal) de 2013.

Já para crianças em situação mais favorecida (com mães mais Escolarizadas), o ganho com a Creche e a Pré-Escola é substancial.

É um resultado diferente do encontrado em outros países, como em programas americanos, em que a oferta do Ensino infantil beneficia, primordialmente, os mais pobres. Nesses lugares, a Escola compensa ao menos parte da defasagem de estímulos que a criança deveria receber em casa.

Há algumas hipóteses para que o Ensino infantil no Brasil não traga tal resultado. Uma das mais sólidas é que falte qualidade para as Escolas, especialmente às que atendem à população de baixa renda. A pesquisadora Maria Malta Campos levantou o problema já em 2010, quando analisou a situação de Creches e Pré-Escolas em seis capitais. Com base em instrumento internacional de avaliação, ela classificou nossas Creches e Pré-Escolas, na média, como de baixa qualidade.

Um ponto importante quando se discute qualidade no Ensino infantil é identificar o que exatamente é essa qualidade. Um prédio novinho e merenda adequada têm seu valor. Mas não é o que realmente faz a diferença. Dois aspectos já detectados pela ciência como importantes são o engajamento dos Educadores em instruir as crianças (preocupação em oferecer mais que o simples cuidar) e o número de crianças por Educador (quanto mais individualizada a atenção, melhor). Essas constatações aparecem em diversos trabalhos internacionais.

O Brasil enfrenta carência de dados na área — é um dos poucos países que não têm acompanhamento sistemático do desenvolvimento das crianças de 0 a 5 anos. De qualquer forma, as informações já disponíveis mostram caminhos que podem ser tomados para melhorar a qualidade das nossas Creches e Pré-Escolas e beneficiar quem mais precisa. Mas ainda falta o principal: a consciência de que devemos ir atrás dessa qualidade.
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*Eduardo Queiroz é Diretor Presidente da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

 

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