30/05/2017

Riscos e benefícios das novas tecnologias para crianças e adolescentes

Por: 

Felipe Jannuzzi

O compromisso com o desenvolvimento pleno das crianças e adolescentes é um direito assegurado como prioridade absoluta em nossa Constituição Federal, em seu Artigo 227. Assim sendo, é vital refletir constantemente sobre agravos e vulnerabilidades inerentes a esta faixa etária. Os caminhos seguros são esclarecimento e educação.

Conversamos com Paulo Telles, médico psiquiatra do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (NEPAD) e pesquisador colaborador do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente (NESA) – ambos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Falou-nos sobre ansiedade da informação, dependência pela tecnologia, uso, abuso e ressaltou-nos ainda o cuidado em não repudiarmos uma ferramenta essencial nos dias atuais pelo fato de poder ser mal utilizada em algumas situações. Vale refletir.

BVS Adolec – Hoje, a Internet e os celulares são ferramentas profissionais e de estudo, sabemos. Como o usuário consegue diferenciar a dependência do uso considerado “normal”?

Paulo Telles – Neste caso o limite entre as duas situações pode ser bem tênue. A diferenciação fica mais evidente no caso de usuários situados nos extremos destas formas de uso.

Pode mesmo ocorrer uma variação num mesmo indivíduo, oscilando entre formas consideradas “normais” até formas mais “compulsivas” e geradoras de problemas, dependendo do seu estado psicológico ou das circunstâncias em que está envolvido no momento.

A maneira mais evidente de evidenciar uma dependência seria a constatação de que o uso excessivo está prejudicando de forma significativa a vida do indivíduo, implicando no desfazimento de laços sociais, isolamento social, dificuldade em assumir e cumprir suas responsabilidades, rendimento ruim na escola ou na profissão, etc.

BVS Adolec – Adolescentes precisam, conforme nos alertam especialistas, de uma atenção especial, devido ao uso exagerado nos dias de hoje. Muitos, inclusive, passam a conversar com os amigos ao lado pelo aplicativo, como se não estivessem presentes… O que ressaltar a esse respeito? Como fica a questão do desenvolvimento emocional do indivíduo e possíveis transtornos na fase adulta?

Paulo Telles – Acredito que a adolescência seja uma fase de condutas particulares (muitas vezes consideradas pouco usuais ou mesmo estranhas ao modo normal de funcionamento de um indivíduo), mas isto é o esperado neste momento de transição por que passa todo indivíduo. O uso inadequado do smartphone, assim como outras condutas (uso de drogas, comportamentos dissociados, hábitos pouco usuais, etc.), podem ser fases passageiras, não necessariamente patológicas, durante este conturbado momento.

Os transtornos de comportamento do adolescente muitas vezes causam grande ansiedade aos que estão em sua volta. Não se sabe como evoluirão estas condutas. Se elas fazem parte do desenvolvimento normal do adolescente ou se são um prenúncio de um problema psicológico mais sério. A proximidade afetiva com o adolescente e o acompanhamento constante destas condutas é fundamental. No caso de anormalidades na conduta mais acentuadas, duradouras ou que se agravem ao longo do tempo, deve ser procurado um profissional competente (psiquiatra ou psicólogo, por exemplo) para ajudar no diagnóstico e equacionamento da questão.

BVS Adolec – Há uma infinidade de jogos on-line e videogames. Chega a ser comum ver-se hoje até mesmo crianças, muito pequenas, isoladas, com o celular do pai na mão em vez de estar brincando com os colegas… Quais os malefícios já no hoje e os futuros para essas crianças?

Paulo Telles – Depende, o interesse por jogos, desde que não prejudique o convívio das crianças com as outras pessoas, ou a realização de suas tarefas, não significa necessariamente um problema. A maioria dos jogos pode desenvolver habilidades interessantes na criança (coordenação, raciocínio, etc.). Além de ser uma atividade prazerosa.

Considero não haver problema quando em algumas ocasiões o jogo é mais interessante que outras atividades. Mas se isto ocorre de forma excessiva, a ponto de haver um processo de isolamento acentuado da criança, deve haver interferência dos responsáveis no sentido de dar limites. Sem dúvida, uma conduta de intenso isolamento causada pelo uso do celular e seus aplicativos ou por qualquer outro motivo, pode ser prejudicial ao desenvolvimento psicológico do indivíduo.

BVS Adolec – Quanto ao comportamento dos pais?

Paulo Telles – Acompanhar de perto o adolescente, procurar ter um bom canal de comunicação com o mesmo e dar limites nos casos de excessos.

Sintomas e suporte emocional

BVS Adolec – Poderia listar alguns sintomas iniciais que podem levar ao vício?

Paulo Telles – Isolamento social intenso e não realização de atividades que se espera da criança/adolescente na fase em que se encontra (falta de responsabilidade em relação aos seus compromissos e tarefas – como, por exemplo: na escola, higiene pessoal, organização, comportamentos inadequados, etc.). Seriam sintomas que deveriam nos alertar para possíveis problemas psicológicos mais sérios.

BVS Adolec – Suporte emocional. Há tratamento de dependência digital? Quais locais? Como pais e educadores podem discernir a hora exata de procurar tais serviços?

Paulo Telles – A “dependência digital” não deve ser entendida como um fenômeno autônomo. Ou seja, a tecnologia não é má em si, ela sozinha não causa dependência.

Para que ocorra o mau uso, deve existir um terreno fértil a um nível psicológico. A prova disso é que muitas pessoas utilizam a tecnologia sem problemas. Logo, o tratamento passa por uma avaliação/reestruturação do indivíduo como um todo, especialmente ao nível do seu emocional.

No caso do uso claramente problemático, prejudicial ao indivíduo, deve ser procurado tratamento. O tratamento visa equacionar questões psicológicas que podem estar ou não diretamente relacionadas ao hábito problemático. Não adianta colocar a tecnologia como bode expiatório de questões mais complexas. Por exemplo, devemos nos questionar porque certas pessoas fazem o mau uso. Quais os motivos dela não buscar outras formas mais saudáveis de obter prazer, ou, formas mais eficazes de elaborar suas angústias e ansiedades? Estas questões serão necessariamente objeto do tratamento. Um indivíduo mais equilibrado emocionalmente terá uma melhor capacidade de avaliação da sua relação com a tecnologia, e, bom senso para buscar harmonia nesta relação. A terapia psicológica pode ser um coadjuvante neste processo de restabelecimento do equilíbrio emocional.

BVS Adolec – Gostaria de ressaltar algo mais aos que nos leem agora e que vivem submersos em meio a tantas tecnologias. Qual o melhor caminho para a moderação; evitando-se que um problema se torne uma patologia?

Paulo Telles – Em primeiro lugar, não devemos repudiar uma ferramenta essencial nos dias atuais pelo fato de poder ser mal utilizada em algumas situações. Como para outras questões, é fundamental o bom senso e capacidade de autocrítica na avaliação dos fatos. Na maior parte das vezes, a própria pessoa acaba por perceber seus excessos, modulando ações que poderiam trazer problemas em sua vida. Pessoas do convívio próximo também são importantes “termômetros” na avaliação desta questão (especialmente no caso de crianças e adolescentes – que ainda não atingiram um desenvolvimento psicológico maduro o suficiente para lidar com algumas questões), detectando e assinalando uma possível dificuldade do indivíduo na sua relação a certos hábitos. Muitas vezes isso é o bastante para encontrarmos um caminho mais moderado em nossas atitudes. Quando não for, a ajuda, apoio e orientação profissional se fazem necessários.
 

Fonte: Felipe Jannuzzi – Jornalista, editor executivo da Revista Adolescência & Saúde, publicação oficial do Núcleo de Estudos da Saúde do Adolescente da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (NESA/UERJ).

 

Tags: 

  • Direitos Humanos
  • ECA
  • Educação
  • Saúde