25/04/2017

Ser feliz e aprender

Por: 

Antônio Gois*

O que é mais valioso: ter a certeza de que o filho está feliz, ou saber que ele está com boas notas na escola? Certamente haverá quem, diante dessa questão, priorize um ou outro aspecto. Mas provavelmente a maioria dos pais de adolescentes antes de tudo questionarão a própria pergunta. Afinal, ser feliz e ter bom desempenho escolar não devem ser excludentes. E esta foi uma das principais conclusões de um relatório divulgado na semana passada pela OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

O fato de a OCDE produzir esse tipo de estudo já é digno de nota, pois a entidade organiza o Pisa, exame internacional que avalia aprendizado de alunos de 15 anos em mais de 70 países. A prova é questionada por uma parcela expressiva de educadores por produzir rankings de sistemas educacionais, dando, segundo os críticos, demasiada ênfase a resultados de testes padronizados. No relatório divulgado semana passada, o foco, porém, não era o desempenho, mas sim o bem-estar dos jovens.

Ao correlacionar resultados de aprendizagem com o nível de satisfação dos estudantes com suas vidas, a OCDE identificou que há de fato países em que felicidade não combina com bom desempenho escolar. Os casos mais emblemáticos são de nações asiáticas, como Coreia do Sul, Japão e China. Há um conjunto de países em que acontece o oposto: baixo desempenho e maior felicidade. O Brasil está nesse grupo, composto principalmente por latino-americanos, ao lado de México, Colômbia, República Dominicana e Peru. Para a entidade, o ideal a perseguir neste contexto está em sistemas educacionais de nações europeias, como Finlândia, Holanda, Suíça e Estônia, onde há altos níveis de aprendizagem e de felicidade.

Apesar de se sentirem relativamente felizes, os jovens brasileiros aparecem na pesquisa com um dado preocupante: são dos que, na comparação internacional, mais relataram altos níveis de ansiedade com provas, mesmo quando se sentiam preparados para elas.

O relatório indica que há atitudes de pais e educadores que podem influenciar positivamente tanto no bem-estar dos adolescentes e em seu aprendizado. Alunos que reportaram conversar mais com seus pais e ter mais tempo de convívio entre eles (e menos isolados na internet) têm níveis de felicidade maiores. No caso da escola, a ansiedade gerada com os testes diminui quando estudantes reportam que seus professores adaptam as aulas para as necessidades suas e dos colegas e conseguem dar ajuda individual quando há alguma dificuldade de aprendizado. O estresse aumenta consideravelmente, porém, quando alunos dizem sentir que os professores acham eles menos inteligentes, ou quando acreditam que são mais rigorosos na avaliação deles na comparação com outros colegas.

O fato de alunos brasileiros reportarem alto nível de estresse com provas somado às evidências sobre atitudes de pais e educadores que podem contribuir com isso merecem reflexão. Talvez sejam indicativos de que ainda trabalhamos por aqui com a ideia de que as provas servem mais para separar os que merecem ser aprovados dos que serão castigados com uma reprovação, em vez de encará-las principalmente como instrumentos de diagnóstico que permitem identificar lacunas no aprendizado a serem trabalhadas com cada aluno, em seu benefício.
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*Antônio Gois é jornalista e colunista do GLOBO, especializado em educação.

[Fonte: O Globo]

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